quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

LEMON TREE

Desde a semana passada,
quando assisti o incrível A NOIVA SÍRIA,
decidi locar outro do Eran Riklis, porque, sempre que descubro algum diretor novo (ao menos para mim, ignorante no assunto... kkkkkk) e, de cara, enlouqueço por algum de seus filmes, fico me perguntando se o sujeito não é mais um daqueles cineastas de um filme só, ou seja, que vai dirigir 200 filmes, mas somente unzinho será realmente bom...
*
Bem, DEFINITIVAMENTE,
esse NÃO é o caso de ERAN RIKLIS!!!
Graças a Deus (!!!), na mesma locadora,
encontrei o LEMON TREE, de 2008,
que - talvez - consiga ser ainda melhor do que o anterior
(bem difícil de escolher!):

"Parece que Eran Riklis se inspirou em um caso real para criar a história de Lemon Tree. Isso nem vem ao caso. A trama que ele criou é fortíssima, emblemática; parte de um pequeno detalhe, uma coisinha ínfima, e a transforma num gigantesca metáfora sobre o conflito Israel-Palestina. Salma, uma palestina viúva, vive do pomar de limões que possui na Cisjordânia, criado pelo pai dela 50 anos antes. Ao longo de toda a sua vida, ela regou, cuidou, tratou dos limoeiros. O pomar fica exatamente junto à fronteira com Israel. Um dia, mudam-se para a bela casa do lado israelense o próprio ministro da Defesa do país, Israel Navon (Doron Tavory), e sua mulher Mira (Rona Lipaz-Michael). O serviço secreto israelense decide que é preciso botar abaixo os limoeiros, para garantir a segurança do ministro. Salma decide resistir como for possível. Davi contra Golias, como citará, explicitamente, o advogado a quem Salma vai recorrer, Ziad Daud (Ali Suliman). (...) Lemmon Tree tem mais camadas do que um jacarandará, um carvalho centenário, uma sequóia milenar. Está lá, à mostra, a truculência toda do gigante contra o anão, o Estado rico, forte, poderoso, muitíssimo bem equipado e armado, contra um povo que não tem Estado, que não tem uma liderança nítida, clara, dividido entre facções. Está lá toda a truculência do Estado de Israel contra uma viúva pobre. Mas isso é só a casca. Por detrás dela, há diversas outras camadas. Há a solidão profunda daquela mulher. Há os imensos preconceitos do próprio povo palestino que aprofundam ainda mais sua solidão, sua fraqueza. Há a cultura árabe que (como diversas outras, sabemos) sinistramente proíbe que uma viúva possa algum dia ter uma segunda chance afetiva na vida. Há a convivência da mulher com os símbolos islâmicos, o véu obrigatório, a vaidade, o batom apesar do véu, a decisão de aparecer diante de um homem sem o véu – uma beleza de símbolos, signos. Há os diversos conflitos e problemas do lado de Golias, também. Nada é maniqueísta, nada é ou preto ou branco neste filme – tudo é multifacetado, cheio de diversos tons, gradações. O ministro Israel Navon (na escolha do nome do personagem, temos que admitir, Eran Riklis não quis ser sutil) não é um bandido, um filha da mãe total e irreparável; ele até diz, off the record, que pessoalmente não concorda com a decisão de pôr abaixo o pomar, mas a decisão é do serviço secreto, e o serviço secreto sabe o que faz – e se os terroristas se aproveitarem da proteção dos limoeiros e atacarem a casa dele? E há Mira, a mulher dele (foto acima). Mira é uma boa pessoa. Ela olha para o outro lado das cercas de arame farpado que a separam dos limoeiros de Salma, logo ali, a uns cem metros, em outro universo, em outro plano do tempo e do espaço, e tem até uma certa simpatia por ela. Mira terá sua própria vida chacoalhada pela proximidade dos limoeiros de Salma – enquanto Salma terá sua vida inteiramente transformada, destruída. O relacionamento sem palavras, cheio de olhares, de mudanças de tons, entre essas duas mulheres – a viúva palestina pobre, solitária, e a israelense culta, educada, rica, mulher do ministro da Defesa – é uma das maravilhas deste filme. Há a importância da imprensa, do jornalismo, dos jornais independentes dos governos, essa coisa que o desenvolvimento tecnológico de repente parece estar condenando à extinção, como os dinossauros e os mamutes, e que no entanto é tão importante para a vida quanto “el aire que exigimos trece veces por minuto”, quanto o pão e a liberdade. Os únicos momentos ligeiríssimamente leves, não dramáticos, não pesadíssimos deste filme são aqueles em que a imprensa livre encosta na parede o ministro todo poderoso. Há os filhos, a difícil relação dos pais com os filhos – tanto os de um lado da fronteira quanto os do outro. Há até a insinuação de um caso extra-conjugal. É feito de uma forma sutil, fascinante. E há diversas mostras da solidariedade entre os contrários, como o guarda israelense da guarita e a palestina que ele vigia, da mulher do ministro pelo palestino do restaurante. E o elogio das figuras simples, como a do empregado de Salma, que a criou junto com o pai viúvo como se fosse sua própria filha. Há uma fantástica, fascinante identificação do maior representante de Golias, o ministro da Defesa de Israel, com o menor representante de Davi, o empregado de Salma, na forma de ver a natureza, as árvores. Há camadas e mais camadas para o espectador ir descobrindo, degustando."
Crítica completa AQUI.

Nesse filme, o MURO DA CISJORDÂNIA - do qual falei en passant no post de A Noiva Síria, que tanto me impactou quando da minha estada na Palestina, em visita a Belém - tem um papel de destaque.
E, mais uma vez, eu acabei de assistir ao filme com o mesmo nó na garganta que experimentei, atravessando a fronteira, ao tirar (de dentro do ônibus e escondida dos soldados israelenses, é claro), esta foto:
04/11/10
Fronteira Israel/Palestina
*Do muro propriamente dito, reconheço,
não tive coragem de tirar nenhuma foto,
por pura incapacidade emocional diante daquilo tudo.
E, de verdade, quando - um dia - eu finalmente regressar a Belém,
espero que ele não esteja mais lá...

Sim, sem a menor sombra de dúvidas,
e sem ter recorrido a nenhuma cena forte de homens-bomba, atentados terroristas, sangue, mutilação ou morte, este é mais um daqueles filmes que "nos ajudam a entender o nosso tempo",
se é que isso é realmente possível...
*
EXCELENTE!!!!
SUUUUUUUUUUUPER
RECOMENDADO!!!!